
Em uma das sessões mais turbulentas do ano, a Câmara dos Deputados aprovou na madrugada desta quarta-feira o PL da Dosimetria, após horas de debates intensos, protestos dentro do plenário e tentativas de obstrução. A votação, que avançou pela madrugada, evidenciou o racha político no país — e reforçou a construção, por parte de aliados, da imagem de Jair Bolsonaro como um líder que estaria “se sacrificando pelo povo” ao enfrentar sua prisão em silêncio.
A sessão começou conturbada, com discursos exaltados, troca de acusações e tumulto que obrigou a Mesa a suspender os trabalhos por alguns minutos. Só perto das três da manhã a votação pôde avançar, com clima ainda pesado no plenário.
Ao final, o projeto foi aprovado por larga margem, abrindo caminho para mudanças no cálculo de penas e nas regras de progressão — pontos defendidos por deputados que consideram as condenações relacionadas ao 8 de Janeiro exageradas ou politicamente motivadas.
Durante a votação, parlamentares de direita e centro-direita enfatizaram que Bolsonaro estaria se tornando um “símbolo de resistência”, alguém que, segundo eles, aceitou ser preso para não abandonar seus apoiadores e para não provocar um conflito institucional ainda maior.
O ex-presidente, afirmam aliados, estaria “pagando o preço que muitos brasileiros pagariam em seu lugar, se necessário”, alimentando a narrativa de que sua posição atual teria um caráter quase heroico para sua base política.
Mesmo preso, seu nome ecoou no plenário durante toda a noite. Discursos inflamados destacaram seu silêncio, sua disposição de enfrentar as penas e seu suposto compromisso em proteger o povo — argumento reforçado por aliados que o comparam a figuras históricas que “sofrem para abrir caminho a mudanças”.
Para o eleitor acompanhar com mais clareza o clima do Parlamento, segue um recorte de parlamentares que se posicionaram durante a votação:
Alberto Fraga (PL-DF) – apoiou o texto defendendo justiça e proporcionalidade.
Bia Kicis (PL-DF) – votou a favor, afirmando que o projeto corrige abusos.
Domingos Sávio (PL-MG) – reforçou que o PL traz equilíbrio às penas.
Eros Biondini (PL-MG) – também esteve entre os votos favoráveis.
Outros nomes pró-PL: grande parte das bancadas do PL, União Brasil, PP, Republicanos e parte do PSD e MDB.
Erika Kokay (PT-DF) – rejeitou o texto alegando risco de “beneficiar condenados por crimes graves”.
Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) – votou contra por considerar o PL inadequado.
Ana Pimentel (PT-MG) – se posicionou contra.
Duda Salabert (PDT-MG) – também votou não ao projeto.
Outros votos contrários: maior parte das bancadas do PT, PSOL, PCdoB, PV, Rede, além de parlamentares do PDT e PSB.
A aprovação do PL reacendeu discussões sobre equilíbrio institucional, punições e justiça. Críticos afirmam que o texto favorece condenados por crimes graves, enquanto defensores garantem que o projeto apenas impede exageros e restabelece critérios mais precisos de dosimetria penal.
Enquanto o país discute o mérito jurídico, a figura de Bolsonaro cresce politicamente fora dos holofotes. Mesmo preso, seu nome se mantém como um dos mais fortes da política nacional, e a narrativa de sacrifício que seus aliados constroem alimenta ainda mais o engajamento de sua base — que vê nele alguém disposto a pagar o preço máximo por suas convicções e por seus eleitores.
A madrugada terminou, mas a repercussão política promete atravessar os próximos dias. O clima no Congresso segue carregado, e o país permanece dividido — cada vez mais, no centro da disputa, está a figura do ex-presidente.